quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Futebol estatizado?

Por Gabriel Brito

Afundado em dívidas de todo tipo, o futebol argentino viveu dias de convulsão em seu seio: sufocados, a federação local e os clubes romperam unilateralmente o contrato que outorgava à empresa TSC (Televisión Satelital Codificada) os direitos de transmissão do futebol hermano, negociando-os imediatamente com o Estado argentino. A justificativa? Descumprimento contratual, uma vez que os clubes resolveram se declarar lesados pelos valores recebidos pelos jogos.

De acordo com o contrato com a emissora, dona dos jogos desde 1991, pagava-se 268 milhões de pesos anuais, incluindo-se todas as divisões e a exclusividade dos gols da rodada até a meia noite de domingo, até que os mostrasse em primeira mão no programa ‘Fútbol de Primera’, que vai ao ar às 10 da noite. No acordo com o governo, o valor subiria para 600 milhões de pesos anuais, redentor para as combalidas finanças das equipes locais, e sem exclusivismos contratuais.

A operação contou com uma fortíssima intervenção de ninguém menos que o casal Kirchner. A partir disso, podem-se encontrar diversas razões que levaram o próprio governo a entrar de sola na questão. Com as dívidas, o Sindicato dos Jogadores do país platino já tinha conseguido liminar que adiou o início do torneio de 14 para 21 de agosto. Entretanto, diversos fatores compõem o complexo jogo político de interesses e poder não só no futebol como também em termos de mídia.

Explicando


Desde o início da década passada, o futebol argentino ficava nas mãos de duas empresas: a citada TSC e também a TRISA (Tele Red Imagen S. A.), sendo que o capital de ambas é dividido igualmente pela Torneos y Competências (TyC, emissora que transmite os jogos) e o grupo Clarín, maior conglomerado comunicacional do país e que recentemente entrou em rota de colisão com o governo dos Kirchner.

Não é o caso de entrar nos pormenores da ‘pelea’ do casal K com as Organizações Globo do Rio da Prata, mas o ponto que mais a fermentou já vem de antes, quando o hoje deputado Nestor elaborou uma nova lei de radiodifusão (ainda em tramitação) que visa combater monopólios e oligopólios e reservar mais concessões a emissoras de caráter social ou comunitário, o que obviamente desagrada aos barões da comunicação, tanto de lá quanto de cá.

Por lá, é notório o conflito entre o casal que governa a Argentina desde 2003 e o grupo Clarín, exaltado desde as derrotas governamentais para seu setor ruralista. Com a situação de penúria do futebol local, foi feita a articulação entre o presidente da Asociación de Fútbol Argentino (AFA) Julio Grondona e a Casa Rosada, que cai como luva a ambas as partes no momento.

Pelo acordo, que não inclui a seleção nacional, o governo adiantará cerca de 100 milhões de pesos para dívidas mais imediatas e contingenciará outros 200 milhões para pagamentos de outras pendências dos clubes, inclusive com o próprio cofre público. A validade do acordo seria de 10 anos e as partidas, por ora, televisionadas pelo Canal 7, público e aberto, e também pela TV Encuentro, pública mas a cabo.

Para gerir as transmissões, governo e clubes trabalharão em conjunto através de uma sociedade mista, podendo revender os direitos para outros países e até mesmo para outras redes privadas da Argentina, de modo que, como diz Nestor, “o Estado não perca um único centavo”.

De quebra, o governo, até pela falta de estrutura para transmitir todos os jogos desde já, poderia ceder diversas partidas pelo país a emissoras regionais, o que também serviria para prestigiar e desenvolver uma gama bem mais ampla de canais e profissionais de comunicação e mídia.

“Fútbol grátis y popular para todos”

Em um claro contexto de proveito político da situação por parte do governo, a medida pode no final das contas ser altamente revolucionária para os times e torcedores. Em sua argumentação, Kirchner (que já trocou camisas de seu Racing Club com o corintiano Lula) disse que o futebol é um inquestionável bem cultural do país e que todos os cidadãos devem ter direito a assisti-lo sem ter de pagar por isso.

Explica-se: a TyC é um canal a cabo que transmite seis ou sete partidas por rodada. As outras três ou quatro (são dez ao todo) ficam por conta de seu braço TyC Max, neste caso em sistema Pay Per View. Por razões óbvias, os grandes jogos sempre ficavam com o segundo, de modo que para assistir às melhores partidas o torcedor deveria desembolsar alguma quantia (além da própria assinatura de TV a cabo).

E mais: a TSC, no que configurou parte das queixas de quebra de contrato, renegociava os jogos de PPV para outras TV’s a cabo. Dentre elas, se incluíam a Cablevisión e a Multicanal, também de propriedade do grupo Clarín. Isto é, como escrito por Agustín Colombo, do Diário Critica, “as operações se vendiam e pagavam no mesmo escritório. O Grupo Clarín, dono de metade da TSC, vendia jogos da rodada ao... Grupo Clarín”.

Tal relação de evidente monopólio sobre o futebol já havia gerado processos por concorrência desleal no órgão de defesa do consumidor local. Pelo novo contrato, fica extinto o PPV e obriga-se todas as partidas do Boca Juniors e do River Plate de serem mostradas em TV aberta. Vale lembrar que nem a final do último torneio (Vélez e Huracán) tinha sido veiculada para além da TV a cabo.

Até nessa meteram o Tio Sam

Marcelo Bombau, presidente da TSC, além de dizer que tomaria as medidas cabíveis na justiça, avisou que o ‘sangue ainda chegaria ao rio’, em claro aviso de que a empresa não entregará facilmente o seu ouro. Tanto é assim que simplesmente recorreu à embaixada dos EUA para pedir auxílio, alegando que interesses norte-americanos também eram lesados (três dos quatro acionistas da TyC são ianques).

A discussão, ainda de baixa repercussão por aqui, ganhou as ruas de todo o país, com todo tipo de opinião a favor e contra. A favor, a idéia, incontestável na visão deste colunista, de que por se tratar de patrimônio e expressão cultural da nação não pode de modo algum ficar em mãos exclusivas da TV a cabo, que impede o torcedor de ver jogos gratuitamente, algo difícil de se encontrar pelo mundo, ainda mais em países subdesenvolvidos. De outro, a também irrebatível tese de que existem maiores preocupações sociais para o governo local, o que no caso argentino é bastante claro.

Como resposta, o governo diz que apertará a fiscalização sobre as finanças dos clubes, criando um setor de seu tribunal de contas exclusivamente voltado a este fim e, como citado, não perderá um centavo do dinheiro investido na empreitada.

De toda forma, o rompimento pode gerar uma enorme onda de rediscussões sobre direitos televisivos, especialmente em países, como o Brasil, que sofrem do mesmo tipo de domínio por parte de uma emissora. Sendo o futebol um bem cultural e popular, parece válido que a partir de tal conceito se entenda que o Estado pode ter ingerência em seus rumos, tais quais em outros serviços públicos, especialmente se não se resume a apenas molhar a mão dos clubes e salvá-los da falência, e ainda por cima pagando melhor que o mercado.

Um debate que por aqui não seria menos polêmico e doloroso. Mas que torcedor não sonha em se ver livre de ter de esperar até as 10 da noite e o fim da novela para ver seu time do coração jogar? Não me parece que o futebol seria menos interessante com Palmeiras x Corinthians ao vivo na TV Cultura, seguido de um Fla-Flu na telinha da TVE e por aí afora.

Publicado também no Correio da Cidadania.

terça-feira, 14 de julho de 2009

A Copa do Mundo é nossa. Ou 'deles'?

Por Gabriel Brito

No último dia de maio, a FIFA anunciou em Zurique as 12 cidades brasileiras que sediarão a Copa do Mundo de 2014, oficializando quais localidades também receberão maiores injeções financeiras até a data da competição. Como se sabe, as nomeadas foram São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador, Recife, Fortaleza, Natal, Cuiabá e Manaus.

A lista por si só já traz graves injustiças e deixa claro o caráter ‘politiqueiro’, talvez único na história dos mundiais, das escolhas, excluindo cidades que de diversos pontos de vista, principalmente o esportivo, mereciam ser contempladas. Nunca se viu tantos políticos e agregados em reuniões da entidade máxima do futebol, a ponto até de constranger os altos executivos da FIFA.

Quanto ao orçamento do evento, pouco adianta agora tentarmos praticar exercícios de imaginação e precisar o montante a ser despendido. Sabe-se que a FIFA faz diversas exigências de garantias governamentais para assegurar a realização da Copa do Mundo, o que já foi acatado pelo nosso Planalto e significa que uma grande, gigantesca, sangria pode ser infligida aos cofres públicos.

Tal como sempre procede, a entidade presidida por Joseph Blatter (suíço, mas da mesma estirpe das velhas raposas que habitam os corredores do poder esportivo) não se limita a exigências somente no que tange as quatro linhas. Serviços de alto nível em transportes, hotelaria e comunicação são pontos dos quais não se abre mão e nos quais o Brasil se encontra em baixo, em alguns casos péssimo, estado de desenvolvimento.

Isso significa que teremos de investir bilhões na melhoria desses serviços, ou até mesmo na criação de alguns deles em determinadas praças. Dessa maneira, o orçamento do mundial brasileiro deverá superar de forma estratosférica seus antecessores, como a Alemanha-2006 (20 bilhões de dólares gastos, sendo 16 bi privados) e África do Sul-2010 (cerca de 4 bi ao todo).

Segundo informou o Diário Lance!, o custo geral do evento por aqui deve ficar na casa de 80 bilhões de reais, impressionante logo de saída e que assusta quando, reitero, lembramos da eficiência brasileira nas ciências contábeis, como se viu no Pan 2007. No entanto, apesar de aparentarem, e serem, valores absurdos, muitas das obras em infra-estrutura se fazem realmente necessárias no país, como é o caso do metrô em Porto Alegre.

Entretanto, sendo irreversível a loucura de entregar uma Copa do Mundo na mão de quem deveria estar preso, como é o caso de algumas cabeças dessa empreitada, a sociedade brasileira deverá ficar vigilante ao que se fará com seus rendimentos como nunca se acostumou a estar. Sabedores de seu compromisso assumido perante a FIFA de fiador do mundial, não será difícil ver o governo pressionado por comitês organizadores e políticos requisitando mais verba para seus projetos.

Prova de que o hiperbolismo pauta nossos ‘capitães da copa’ foi o encontro realizado em Brasília, entre o governo federal e os governadores e prefeitos das cidades e estados sedes. Na audiência, foram pedidos entre todas as cidades mais 20 bilhões de reais de aporte oficial nas obras de infra das respectivas cidades. E olha que o governo já havia direcionado R$ 7,7 bilhões do PAC especificamente voltados ao mundial, o que ficou conhecido como PAC da Copa.

Até o próprio ministro dos esportes, Orlando Silva Junior, íntimo da cartolagem nacional, tentou colocar um freio, pedindo aos distintos homens públicos que se concentrem apenas em projetos viáveis e que sejam capazes de deixar um legado à região. Pois é, foi preciso reforçar tal questão. E não sem razão, pois o prefeito de Cuiabá, Wilson Santos (PSDB), já havia dito que a cidade não estava preocupada em construir algo cuja utilidade pública fosse posteriormente garantida. Créditos a um dos grandes desmatadores do país, Blairo Maggi, com seu saco sem fundo de dinheiro proveniente de pedaços da Floresta Amazônica e do Cerrado que já não existem. Enquanto isso, a cidade e o estado seguem sem possuir um time sequer na terceira divisão nacional.

Posto isso, não fica difícil imaginar que os governantes terão uma boa margem de manobra para pressionar o governo, ainda mais em época de crise econômica sem fim previsto, o que também espanta a iniciativa privada de investir com convicção nos projetos – até porque já está acostumada com os mimos do governo e do BNDES no apoio a ela para o cumprimento de sua parte nas ‘parcerias’ que tanto já testemunhamos.

Por mais espetacular que seja abrigar uma Copa do Mundo, e por mais que tal ocasião seja um sonho para os fãs do futebol, não dá pra engolir que a graça tenha sido trazida pelas mesmas pessoas que infestam o Senado de podridão política e institucional, pelos mesmos que faliram o futebol nacional (quando não o roubaram diretamente) e outros ilustres, como Francisco Mussnich, do Comitê Organizador, cunhado e advogado do inefável Daniel Dantas – o próprio. Faz parte da mesma excrescência do projeto olímpico Rio 2016, sem falar do já ocorrido Pan de 2007, que por si só explica bastante nossos temores.

Como disse no início do texto, os tais 80 bilhões de orçamento devem ser encarados apenas como chute, uma mera previsão inicial, sujeita a todos os sabores dos lobbies políticos e justificativas escoradas na crise mundial, que, aposto, fará a iniciativa privada tirar o pé como ninguém ainda alerta. Mas, como diz o jargão futebolístico, dá pra dizer de antemão que esta costuma ‘pipocar’ feio quando a maré não está a favor.

Portanto, brasileiros, preparai vossos bolsos (parte 1543465).

Publicado também no Correio da Cidadania.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Quando a política e a burocracia valem mais que a vida

Por Kadj Oman, www.vailateral.wordpress.com

Ontem, 03 de junho de 2008, Corinthians e Vasco decidiram no Pacaembu uma das vagas à final da Copa do Brasil. Ontem, 03 de junho de 2009, na Marginal Tietê, mais um torcedor foi vítima da violência que permeia não só o futebol, mas toda a sociedade. Uma violência que as capas de jornal e as telas de TV não demoram em taxar de “irracional”, “gratuita” e “criminosa”, no que até chegam a ter razão em alguns momentos, mas que nunca buscam explicar e compreender na esfera que diz respeito ao que mais importa: a segurança da vida dos torcedores de futebol.

A informação oficial do promotor de justiça Paulo Castilho e do major da Polícia Cipriano Rodrigues, responsáveis pela segurança no jogo de ontem (e no caso do promotor, pelas políticas de segurança relacionados a jogos de futebol em São Paulo), segundo o jornal Lance! de hoje, é de que “15 ônibus com cerca de 800 cruzmaltinos chegaram pela Rodovia Presidente Dutra. Na altura de Guarulhos, eles foram acompanhados por 20 policiais militares de moto”.

Paremos neste ponto. Não é preciso ser um gênio da matemática para perceber que 20 policiais são mais do que insuficientes para fazer a escolta de 800 torcedores. Ainda mais quando, segundo o próprio promotor, sabia-se da intenção de emboscada entre as torcidas, graças à denúncia anônima que ele mesmo recebeu e por conta da qual impediu os vascaínos de deixarem seus ônibus nas sedes de TUP e Mancha Alviverde, torcidas do Palmeiras aliadas às vascaínas. A idéia dos cariocas era ir a pé ao estádio. Paulo Castilho disse à Polícia para não permitir e ordenou a escolta dos ônibus até o Pacaembu.

No caminho, voltando ao texto do Lance!, “eles acessaram a Marginal do Tietê e, quando chegaram à Ponte das Bandeiras, Zona Norte de São Paulo, cruzaram com quatro carros e um ônibus de corinthianos. De acordo com o major Cipriano Rodrigues (…), os vascaínos conseguiram se desvencilhar da escolta. Tiros e pedaços de paus foram usados no conlfito”.

Não bastasse o absurdo que é não perceber o possível cruzamento entre ônibus de torcidas rivais na Marginal Tietê, via mais do que conhecida de acesso ao estádio, faltou ao comandante contar um pouco mais sobre que ônibus e que carros de corinthianos eram esses, e explicar melhor como os integrantes das torcidas chegaram ao confronto.

Fora o já sabido número ridículo de policiais na escolta vascaína, há muitos outros problemas que levaram ao assassinato do torcedor. Comecemos pela própria escolta. Como a Polícia leva 15 ônibus de torcedores até o estádio sem fazer uma revista em seu interior? Se esta foi feita, como não foram descobertas as barras de ferro, pedaços de pau e armas de fogo utilizadas no confronto? Descaso? Despreparo? Ou a mesma falta de entendimento dos torcedores organizados enquanto um coletivo que tem representação social e jurídica perante à sociedade e o tratamento dos mesmos enquanto bandidos e animais a priori, fazendo com que a minoria violenta ganhe o apoio da maioria não-violenta exatamente por esta se sentir mais segura com a segurança pessoal dos próprios companheiros na base da arma de fogo do que com a segurança que deveria ser provida pela Polícia? Qualquer semelhança com a relação entre moradores de periferia e traficantes que “protegem” a comunidade não é mera coincidência; qualquer relação com o resultado do plebiscito sobre o porte de armas de fogo realizado anos atrás, também não.

Além disso, a Polícia credita aos torcedores corinthianos a intenção da emboscada, por ter encontrado com estes as já citadas barras de ferro e armas de fogo. Os mesmos 60 e poucos que vinham em um ônibus e quatro carros e que foram presos após o confronto pelo porte das armas e por tentativa de homicídio, juntos aos vascaínos envolvidos. Agora, dá mesmo para acreditar que 60 e poucas pessoas buscavam emboscar 800? Ou será que é mais fácil omitir informações sobre essas 60 pessoas? Como aqui a intenção é contextualizar ao invés de pintar um cenário apocalíptico e irracional como de costume, vamos a elas.

A pequena caravana corinthiana era composta por membros do Movimento Rua São Jorge. Um grupo de associados da Gaviões da Fiel que se indignou com algumas práticas às quais são contrários na quadra da torcida – como corrupção – e passou a se encontrar na Rua São Jorge para ir aos jogos. Grupo esse que conta com diversas lideranças importantes da Gaviões e que, entre outras coisas, promoveu um seminário sobre torcidas organizadas envolvendo jornalistas, políticos e torcedores buscando colocar as torcidas como o que deveriam ser, representantes do torcedor no mundo do futebol, a lutar contra o preço dos ingressos e a condição indigna a que são submetidos jogo a jogo, por exemplo. Em outras palavras, lutam para serem entendidos e respeitados como um movimento social, e não meros consumidores.

Iam ao jogo de ontem, como sempre, sem escolta, porque a Polícia Militar simplesmente não os reconhece enquanto torcida – apesar de serem sócios ativos da Gaviões da Fiel – já que não tem CNPJ. Enquanto um grupo pequeno em relação aos “bondes” já estabelecidos há tempos por todas as outras organizadas, e por concentrarem várias lideranças da Gaviões, são sempre alvo de ataques e emboscadas – muitas já denunciadas pela mídia afora. Algo que a Polícia e a Secretaria de Segurança Pública preferem ignorar burocraticamente – até que coisas como o que passou ontem aconteçam. E aconteçam, neste caso, porque a Polícia parou os corinthianos para revistá-los a uma distância de 100 metros dos vascaínos, segundo um torcedor que estava no ônibus corinthiano. Além da completa falta de comunicação e planejamento, se fez presente como sempre o descaso com o torcedor organizado, tratado como lixo, e com a vida – o que infelizmente não é de se estranhar quando estamos falando da mesma Polícia que protagonizou cenas como o massacre do Carandiru. A organizada, transformada em sujeito, atravessa a própria condição dos sujeitos pertencentes a ela, que não são mais pessoas, apenas números e nomes na lista de envolvidos e mortos.

Não se justifica encontrar entre torcedores que vão a um estádio de futebol barras de ferro e revólveres. Mas a explicação para isso não é simplesmente algum tipo de vontade sociopata de matar presente em todos eles. Cada vez mais, as políticas em relação aos estádios vão no sentido de isolá-los, excluí-los, elitizar as arquibancadas e passar a imagem do estádio enquanto um ambiente seguro e tranquilo a ser consumido – por quem pode pagar R$ 4,00 num simples churros e ir a jogos às 21h50 de uma quarta-feira. O problema, que as autoridades terão de enfrentar em algum momento, é que o jogo não se resume – nunca se resumiu – ao espaço do estádio. O futebol está presente por toda a cidade, ainda mais em dias de jogos, e tentar reduzí-lo ao estádio não é um risco, é uma opção política, uma orientação que tem o mesmo sentido daquela que permite a certos grupos espancar e matar moradores sem-teto no centro da cidade, e retirá-los de prédios ocupados usando de força desmedida, mesmo contra mulheres, crianças e idosos.

Hoje, há dezenas de pessoas hospitalizadas, algumas com ferimentos a bala. E como já se sabe amplamente, uma pessoa, ainda não identificada, foi espancada até a morte e deixada na Praça Campos de Bagatelle, palco recente da comemoração de títulos conquistados pelos clubes paulistanos. Apenas de cueca, sem documentos e com o rosto completamente desfigurado. Uma estratégia comum no mundo do tráfico de drogas – assim como o incêndio do ônibus vascaíno em represália acontecido durante o jogo, que não se compara em nada à morte do torcedor – a destruição de um patrimônio material nunca é mais importante do que a perda de uma vida. E os meios de comunicação, como sempre, noticiarão o caso em sua maioria como uma simples briga de gangue, darão voz aos que querem o banimento das torcidas organizadas, aos jogos de uma torcida só – os mesmos que não sabem, ou fingem não saber, que o São Paulo x Corinthians da primeira fase do Paulistão, aquele em que vigorou pela primeira vez a restrição de 5% às torcidas visitantes, registrou número recorde de ocorrências pela cidade desde aquele São Paulo x Palmeiras pela Copa São Paulo de Juniores em que um torcedor foi morto a pauladas dentro de campo – cena repetida milhões de vezes pelos canais de televisão até hoje.

Em 2014, o Brasil sediará uma Copa do Mundo. São Paulo, provavelmente, será o palco da abertura e, com certeza, de diversos jogos importantes. Até lá, como estarão as medidas de segurança pública em dias de jogos? E a condição dos torcedores, organizados ou não? Caminharemos para o mesmo destino do Rio de Janeiro, com seu Pan-Americano que retirou moradores de rua às pressas para a vistoria do COI e que deixou de herança elefantes brancos, construídos com dinheiro público, prestes a serem prrivatizados a preço de banana? Ou há força suficiente para nos organizarmos por uma Copa que seja realmente nossa, da qual façamos parte, sobre a qual sejamos consultados – como deveríamos ser sempre quando se trata de medidas de segurança pública?

Se a mídia, que tem o dever de informar, quase sempre não o faz com a clareza e a crítica necessária, que ao menos textos como este e ações que sigam na direção de acabar com as mortes e a exclusão social sejam difundidos de todas as formas possíveis. Se ele chegou até você, leia. Pare, reflita, critique, encaminhe. Que começemos a criar, de todas as formas ao nosso alcance, um fórum de discussão sobre estes assuntos. Dizem respeito às nossas vidas. E podem determinar, como ontem, a nossa morte um dia.

Que, a partir de hoje, nenhum episódio sequer de violência passe despercebido e sem ser denunciado no seu conteúdo total. É este o desejo de quem escreve este texto. Porque escrever é muito mais do que saber juntar palavras – ainda mais quando se ganha pra isso.

Kadj Oman
DHVCorinthians

04/06/2009

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O Rio de Janeiro continua lindo

Por Gabriel Brito

Para quem pensava que aquele Rio de Janeiro da bossa nova, dos bondinhos, da felicidade do povo local e da máxima expressão de nossa brasilidade tinha ficado na nostalgia, o Comitê Olímpico Brasileiro tem uma boa nova: ele ainda existe, e será ainda mais materializado quando a Cidade Maravilhosa, cada vez mais, receber de braços abertos os Jogos Olímpicos de 2016.

Se alguém pensa se tratar de um delírio, nossas autoridades esportivas podem com enorme prazer comunicar que aquela metrópole dos cartões postais está mais vívida do que nunca. Caso ande desinformado dos acontecimentos recentes, basta assistir ao breve filme panorâmico da cidade mostrado aos inspetores do Comitê Olímpico Internacional (COI), muito revelador até mesmo para nós, habitantes nativos incólumes a tamanha revolução.

Na película, cuja estética e cenografia são de fazer inveja até naquele pessoal que foi se reunir em Cannes, o Rio de Janeiro erradicou seu déficit habitacional, ou seja, não há mais sem tetos; o trânsito flui tão naturalmente como sangue em veias; a moradia em favelas não se faz mais necessária, o que extinguiu os morros da paisagem da cidade; e, claro, os servidores públicos são a fina flor da cordialidade humana.

Tudo isso sem precisar de mais de 5 minutos para escancarar aos surpreendidos – e, portanto, também desinformados - enviados internacionais os até então desconhecidos avanços da sociedade brasileira.

Não vamos nem comentar o funcionamento dos serviços essenciais da cidade, pois já são assuntos superados que se encontrarão em nível indiscutivelmente superlativo daqui a sete anos. Tampouco falemos do Rio de Janeiro que não foi nos Jogos Pan-americanos, quando a limpeza da Lagoa Rodrigo de Freitas e a expansão do metrô, entre outros legados, foram deixadas para uma próxima.

Todo o cenário descrito acima seria lindo, não fosse falso. Foi apenas o famoso trabalho de fachada, tradicionalíssimo por aqui, das autoridades locais, que deram uma pequena ‘higienizada’ no atual visual da cidade. Também foram estratégicos, como confirmou o prefeito Eduardo Paes, ao escolher um feriado, livre de trânsito, para realizar o passeio avaliativo dos membros do COI. "Temos de dar um jeitinho para conseguir trazer as Olimpíadas".

De resto, tudo certo

Se por um lado já foi possível solucionar as principais mazelas sociais cariocas, por outro há alguns pontos que permanecem obscuros para aqueles que insistem em não se contentar com a vinda de grandes eventos - vistos e curtidos por quase todos no mundo, até os críticos – pelas mãos exatamente do que há de pior em nossa sociedade. Gente que faz sua incompetência, entre outros péssimos costumes, arruinar completamente os setores nos quais se envolvem, mas que ainda assim recebem a graça divina de serem os patronos e condutores de megafestividades mundiais.

Por exemplo, segue desconhecida do público a prestação de contas do Pan-americano de 2007, cuja devassa foi prometida pelo Tribunal de Contas da União para, no máximo, o meio do ano passado. Mesmo diante de todas as evidências de descalabro gerencial, ainda não há culpados, muito menos punidos pela histórica sangria que o esporte causou aos cofres públicos.

E o melhor: pelo critério das instalações esportivas da cidade, "Madri está à frente", disse Nawal El Moutawakel, marroquina que preside a comissão do COI. Nosso Pan foi em 2007 e já estamos defasados, portanto. Talvez pelo fato de só aqui ter-se construído um complexo aquático para 6 mil pessoas e se descoberto, um ano e meio depois, que a capacidade mínima em Olimpíadas é de 12 mil. Pequeno erro de cálculo – coisa de país formado por 75% de analfabetos funcionais, incapazes de ler e interpretar, somar e dividir, então, espero que compreendam. Tóquio, só para dar um exemplo, pretende utilizar grande parte das instalações até hoje conservadas da Olimpíada de 1964!

Quanto aos custos da Olimpíada, até pelo recente retrospecto, também podemos nos manter tranqüilos. O Ministério do Esporte, cujo orçamento de 2009 foi reduzido em cerca de 85% por conta da crise, já gastou a módica cifra de 50 milhões de reais em apenas seis consultorias, sendo cinco não licitadas e uma não esclarecida, conforme informou a Folha de S. Paulo. Só para efeito de comparação, não há nenhum esporte no país que receba algo ao menos próximo disso de fonte diretamente oficial.

Outro a nos tranqüilizar, o que por sinal tem sido sua especialidade, foi o presidente Lula, ao afirmar que o orçamento dos jogos deve ficar na casa dos 30 bilhões de reais. Levando em conta que o Pan foi orçado em 300 milhões e saiu para 4 bilhões, imaginem se nossa ineficácia de planejamento contábil mantiver o padrão?

O COB, por sua vez, mostra o quão amigo é do esporte: faz lobby na Câmara para evitar a obrigatoriedade de repassar 30% de seu orçamento (2% da arrecadação bruta de todas as loterias federais, graninha pouca) diretamente aos clubes. Pois é, aos clubes, justamente os que promovem a prática do esporte e revelam os atletas. A proposta de alteração na Lei Pelé, que versa sobre o assunto, já foi aprovada. Restou a Nuzman, presidente do COB, enfiar uma emenda junto. Difícil pensar por que o COB, uma entidade administrativa basicamente, precisa mais de dinheiro que as próprias entidades da prática esportiva.

De toda forma, para usar um termo muito em voga no Rio, cedo ou tarde haverá o choque, no caso, de realidade. "Defender um projeto virtual é meio complicado hoje em dia", disse Mercedes Coghen, também à Folha. É certo que a dirigente defende seu peixe, mas o fato é que Madri já tem uma estrutura infinitamente mais avançada para receber os jogos no ano que vem, fosse necessário.

"Tais negócios são uma obsessão para o governo e a prefeitura, que sempre estão em viagem buscando grandes investimentos. Enquanto isso, pau nos pobres aqui", disse a socióloga Vera Malaguti ao Correio da Cidadania, em entrevista recente. Pois é, pelo bem do esporte brasileiro, que venha logo o dia 2 de outubro, quando se decidirá, enfim, a sede dos jogos de 2016. Com Madri, Tóquio e Chicago na parada, creio que teremos de nos preocupar apenas com a farra da Copa de 2014, essa sim já inevitável.

Também publicado no Correio da Cidadania.

sábado, 18 de abril de 2009

O novo 'poser' da bola

Por Gabriel Brito

O futebol, e sua violência, estão prestando mais um serviço como palanque para alavancagem de carreiras: graças a ele, o promotor de justiça Paulo Castilho não sai mais das manchetes, mesmo sem ter qualquer ligação prática ou passada com o ramo. E seu pavonismo, involuntária ou voluntariamente, é diariamente estimulado pela mídia, que agora publica até suas opiniões sobre o esquema da seleção, caso o dito cujo as tenha.

Responsável pela patética idéia de reduzir a 5% a carga de ingressos de visitante, piorando o cerco sofrido por essa minoria e acirrando o clima de bandos inimigos vigente no futebol paulista, é daqueles seres embebidos da crença de serem os salvadores dos ambientes em que adentram.

"No começo, as torcidas estranharam a pequena cota de ingressos para o visitante. Mas reduzimos ainda mais e reforçamos a segurança do setor. Eu sabia o que estava fazendo". Um disparate, mas se interpretada a fundo, a frase é muito reveladora da personalidade e mentalidade do promotor (e de todos que o bancam por trás). E reveladora de que tal sujeito é mais um que enganará a todos na luta que supostamente empreende pela paz no futebol.

Vamos tentar analisar a frase e suas entrelinhas. "No começo, as torcidas estranharam". Em primeiro lugar, as torcidas não estranharam nada, e sim detestaram, pois está se matando a cultura do clássico de duas torcidas, de forma desproporcional, com os visitantes sendo encurralados em número ínfimo. Em termos de espetáculo, uma queda brutal.

"Reduzimos ainda mais (a cota de ingressos para a visita) e reforçamos a segurança do setor". Nada mais paulista. Restrição, proibição, aumento da repressão, nervos à flor da pele para lidar com o público. Não somos a terra da lei anti-fumo, dos despejos dos pobres para recantos abandonados da periferia, do Psiu de sábado à noite, da ROTA, do povo chato e mal humorado, do céu cinzento e poluído? Portanto, normal que nossos parâmetros de convivência se guiem por aversão ao próximo, rixas, ódios, vedações.

"Eu sabia o que estava fazendo". Ah, é? Foram três clássicos sob tais orientações. Dois terminaram em pancadarias, somando dezenas de feridos, especialmente no famigerado São Paulo x Corinthians do Morumbi. Só o último (mesmos times, no Pacaembu) não registrou incidentes graves. Ou seja, o saldo é muito, mas muito, negativo. Fracasso total na verdade, pois ficou evidente que tal diminuição do público eleva os ânimos da parcela minoritária a níveis estelares, pois se sente acuada e vulnerável – a torcida do São Paulo precisou de uma escolta monumental para chegar ao estádio, parando Paulista, Consolação e o que mais estivesse em volta. Mesmo assim, o promotor se permitiu tal arrogância. Mas pelo menos revelou que as agressões, fraturas e acirramento de ânimos estavam no script.

No mais, Castilho agora está em todas. Vai a jogos da seleção, recepciona a delegação do Sport Recife em São Paulo, fala que prenderia Cristian pelo seu gesto obsceno na comemoração de um gol, assiste jogo da divisa de torcidas. Uma agenda agitadíssima. Pelo jeito, o MP o dispensou de todas as suas demais atribuições. E tudo sob o papinho de estar trabalhando pela paz, mas que é só a desculpa para circular permanentemente no tentador mundo da notoriedade pública e do trânsito nos corredores do poder no ramo. Como dito em outra coluna, já vimos o filme com Fernando Capez. E a resposta está no nosso nariz: São Paulo é a praça mais violenta do país nos espetáculos esportivos. E exatamente a que ‘revelou’ para o futebol a dupla citada.

Um amigo meu foi ao Rio e, não o primeiro, se disse encantando com o clima que se vive na cidade em torno de um jogo. A mídia, ao contrário da amargura paulistana, conclama o público a ir ao Maracanã. Os torcedores adversários se misturam no metrô, na ida e na volta; toma-se cerveja muito mais à vontade (pena que lá também entraram nessa de proibir dentro e vender a um palmo fora); leva-se toda sorte de instrumentos e adereços de festa. Resultado: públicos maiores e menos violência, pois seus causadores também se inibem em meio a um ambiente desfrutado pela população comum que apenas foi ao jogo.

São Paulo caminha há 15 anos na direção contrária, e no que continuar dependendo do promotor continuará, optando por um modelo de segurança que se referencia na violência, não no convívio. Entendo como uma derrota da sociedade, algo como ‘o medo venceu a esperança’. Como disse Mano Brown, que conhece cruamente a cabeça e o comportamento das classes populares, "você tira os instrumentos, a bandeira, a faixa, encurrala as pessoas num cantinho, proíbe cerveja e vende qualquer salgadinho por 4 reais, o que sobra? Violência, claro."

Enquanto não se buscarem vias construtivas, que incentivem a convivência mútua, livre, chegando mesmo a forçar que todos se misturem, só veremos mais vitórias da intolerância. Como também dito em uma coluna anterior, noves fora a tradição, um clássico paulista hoje fica muito abaixo como espetáculo do que qualquer outro pelo Brasil. Nisso, o Rio de Janeiro, e os outros estados, estão anos luz adiante dos paulistas, cujo estado (mais uma vez) mostra-se como a locomotiva (do atraso) nacional.

Figuras como essa de Castilho precisam ter vida curta no futebol. Roubam a cena, concentram a atenção de todos com novas idéias mágicas que não levam a nada, criam falsas esperanças e no final vê-se que todo o processo foi favorável somente a uma pessoa, que vocês já podem imaginar. As propostas do promotor são todas de linha conservadora, retrógrada, iguais as que vimos fracassar nesses anos todos. Não há porque dar ‘moral’ para que tal sujeito continue em sua falsa cruzada.

O fato de se meter na recepção da diretoria do Sport Recife, alegando cuidar da segurança dos pernambucanos apenas mostra o showzinho e a sede por notoriedade do promotor. Desde quando diretorias que se recepcionam em jantares formais e assistem o jogo de cabines privilegiadíssimas precisam disso? Sendo assim, proponho que nossas autoridades subam em ônibus e trens saídos da periferia (e passem um tempo por lá) a fim de averiguarem como anda a segurança do povão. Nesse caso, aplaudiria de pé tamanha ciosidade.

Castilho é mais um embuste midiático, símbolo de autoridades que não possuem respostas verdadeiras para essa cólera da violência no esporte e acham que tiram coelhos da cartola ao (re)aparecerem com suas novas e supostas soluções. Como uma vez disse a socióloga Vera Malaguti, "ficaremos a mercê dos deputados (ou outras autoridades, no caso) que também não estudam, não lêem e precisam aparecer no jornal com uma solução mágica". Pois, ‘the poser’ é assim. Que percebamos mais rápido, e não deixemos que se comprometam, negativamente, outros 15 anos.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Não se enganem: é só mais do mesmo

Por Gabriel Brito

A última coluna abordou os recentes problemas envolvendo torcedores (majoritariamente organizados) e policiais militares em espetáculos esportivos. Infelizmente, os acontecimentos mostraram que o tema está longe de sair da pauta dos noticiários futebolístico-policiais.

Na tarde do dia 22 de março, ao fim de Corinthians x Santos no Pacaembu, novamente a PM se enfrentou com uma torcida (a do peixe), por motivos que outra vez não ficaram esclarecidos. Enquanto isso, o governo começa a ensaiar entrar pra valer na questão e volta a atrair os olhares do público com (mais um) plano de combate à violência e outros males ludopédicos. Dentre eles causou rejeição imediata o cadastramento de torcedores, defendido pelo ministro Orlando Silva Jr., muito amigo dos cartolas, nem tanto do esporte.

O caso ocorrido na capital paulista (que, repito, é onde mais se aplica proibições de toda ordem e onde a violência mais grassa) é simbólico da nulidade de tal medida. A Federação Paulista já tinha se antecipado a essa genial idéia e promovido o cadastro de torcedores membros de organizadas. Serviria, vejam a inutilidade, para que seus membros pudessem ingressar no estádio com o fardamento da entidade à qual pertencessem. Como se roupas determinassem o grau de violência das pessoas. Mas não percamos tempo nesse ponto, que só serviu para criar a segregação da torcida dentro do estádio e não resolveu absolutamente nada. Isso porque em caso de criar algum incidente violento e ter sua carteirinha suspensa, o cidadão em questão poderia continuar freqüentando normalmente os campos, bastando abrir mão da roupa da torcida e entrar por todos os outros acessos do estádio, destinados ao torcedor dito comum. Parece tiração de sarro, mas são as autoridades do esporte “combatendo” a violência.

De toda forma, o tal cadastro da federação, que concedia uma carteirinha ao membro de torcida que se prestasse ao fichamento, reúne cerca de 22 mil nomes, uma boa base de pesquisa para identificar violentos que causassem eventuais distúrbios. Idéia muito propagandeada, matéria na Folha de S. Paulo dessa semana revelou que a lista só foi consultada 3, 4, no máximo 10 vezes. O tenente-coronel Hervando Velozo, que coordena o policiamento dos jogos, disse por sua vez que nunca consultou tal fonte.

Quer dizer, se fazem um cadastro e admitem que não o usam para nada, por que fazer outro, de abrangência nacional ainda por cima? O governo federal, e nenhum dos envolvidos nas discussões, não fez tal observação, o que mostra o desconhecimento que nossas autoridades possuem da realidade das arquibancadas. O projeto apresentado até tem seus pontos interessantes, mas o único que realmente se destaca é a criminalização do cambismo, prática realmente odiada pelos torcedores. Os outros podem ser abrangidos pelas leis existentes ou pelos próprios regulamentos de campeonatos, como no caso da manipulação de resultados. Se bem que o próprio cambismo pode ser enquadrado como crime contra a economia popular, previsto simplesmente no Código de Defesa do Consumidor.

De quebra, São Paulo escala para comandar tal processo um promotor que já se mostrou uma triste cópia do seu antecessor no palanque do combate à violência. O nome dele é Paulo Castilho. O nome dele era Fernando Capez. O segundo ganhou espaço ilimitado na mídia, alavancou sua carreira, fez fama na vida pública, se elegeu para cargos políticos e não resolveu nada. O primeiro parece ser mais do mesmo, pois já ficou amiguinho dos cartolas (os mesmos que criam climas bélicos antes dos grandes jogos, entre outras práticas bárbaras) e não se cansa de sugerir medidas claramente ultrapassadas e de eficácia desmentida pelos próprios fatos.

Falando em cartolas, como vamos mesmo erradicar a violência das praças esportivas se quem comandará o processo, e comanda os clubes, é a mesma gente que permitiu que as coisas chegassem a tais níveis? O presidente do Santos, Marcelo Teixeira, foi flagrado fazendo gestos, xingando e atirando objetos nos torcedores (dos lugares Vips, ou seja, nada de organizados) do Corinthians na partida citada. O do Corinthians, Andrés Sanchez, insuflou um clima de rixa desnecessária no São Paulo x Timão deste ano e vimos no que deu.

As relações entre as pessoas das altas esferas de poder metidas na discussão já são clara demonstração do jogo de cena que estamos presenciando. Políticos, promotores, policiais, delegados, cartolas são os grandes responsáveis pelo lamentável quadro da civilidade esportiva e são os mesmos escalados para promover a paz. Por isso que todas as medidas atingem e afetam somente o torcedor, inclusive aquele pacífico que nunca se envolveu em nada. Mexer na estrutura que é bom, nem pensar. Por isso foi limado do Estatuto do Torcedor, primeira lei assinada por Lula, o artigo que responsabilizava os dirigentes por ocorrências e ilicitudes envolvendo suas entidades. Malandro é o gato, que já nasce de bigode...

Na Inglaterra, exemplo repetido aos milhares, a violência foi combatida com medidas estruturais e estruturantes, isto é, que visavam primeiro mudar a realidade local, para depois exigir contrapartidas dos torcedores, pois concluíram que “o torcedor tratado como animal reage como animal”, como contou o pesquisador Oliver Seitz, que estuda questões relacionadas ao futebol na Universidade de Liverpool.

O relatório Taylor, famosíssimo trabalho de um lorde inglês tido como ponto de partida da efetiva mudança de realidade britânica, vive sendo citado pelos nossos cartolas, quando vêm com a cantilena de que agora a brincadeira acabou. Pois deveriam saber que o mesmo lorde Taylor rifou a idéia de Margareth Thatcher (quem mais?) de implantar um cadastramento semelhante. Disse que a questão dos estádios precisava ser focada na segurança, não na violência. Belo conceito a ser aprendido por aqui, onde só se ataca superficialmente os problemas, de todos os segmentos na verdade, e não no fundo, na origem.

Além do mais, dentre tantos documentos que já permitem nossa identificação perante o Estado, por que mais um, que só viria a burocratizar a simples e inocente (sim, acreditem) ida ao estádio? Não pensaram eles que isso certamente diminuirá o público dos jogos, pois nem todos aceitarão passar por isso, ainda mais quando se tratar daquele sobrinho de oito anos que nunca foi ao jogo? Ou de turistas que queiram conhecer o Maracanã? “Mas aí é só ter o bom senso de deixar entrar”, disse Lula. Quer dizer, a norma já começaria acompanhada do jeitinho brasileiro, que desta vez estaria até previsto em lei, uma grande inovação, reconheçamos.

Enfim, estamos diante de nova cortina de fumaça, que visa somente eximir de culpa e tirar do foco das críticas os mesmos incompetentes de sempre, que na falta de satisfações a oferecer à sociedade aparecem com ‘novas’ idéias de erradicação da violência. Pois enquanto dizem isso, se coadunam com os mesmos que chamam de marginais, concedendo ingressos e demais privilégios a quem dizem enfrentar.

A discussão continua, mas já aviso, sem medo de errar, que por enquanto nada mudará.

Texto também publicado no Correio da Cidadania.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Polícia para quem precisa!

Por Gabriel Brito

É assustadora a crescente onda de violência envolvendo a Polícia Militar no futebol brasileiro. Somente nos últimos três meses, houve ao menos um notório incidente em cada um deles. Isso em plena época em que se vende a ilusão da Copa de 2014 ao público mundial e na qual cartolas bloqueiam com todas as forças quaisquer iniciativas que ousem ir na direção oposta a seus interesses – vide os bem sucedidos lobbies de Ricardo Teixeira e Carlos Nuzman para evitar a instauração de CPI sobre CBF e COB.

Dando o exemplo de como tem sido o combate à violência no futebol, todos os episódios referidos terminaram sem punição. Em dezembro de 2008, no caríssimo e desnecessário Bezerrão (que custou 55 milhões de reais ao orçamento da cidade-satélite de Gama), um policial foi desferir uma coronhada em um são-paulino, a arma disparou e o tiro atingiu a nuca do torcedor, que morreu na hora; em fevereiro, na saída de Corinthians e São Paulo, uma explosão ainda não decifrada causou tumulto entre policiais – que, para controlar a situação, soltaram mais bombas – e corintianos, que terminou com 49 feridos; por fim, no último final de semana, PMs baianos praticaram agressões covardes contra torcedores do Fluminense de Feira de Santana.

Em todos os casos, as reações daqueles que deveriam acalmar e proteger foi de total agressividade e instinto de batalha, para dizer o mínimo; em suma, o torcedor é visto como inimigo a ser combatido. Em todos, a polícia tenta se eximir de culpa, jogando-a para o outro lado, o que é lamentavelmente acobertado ou ignorado pela grande mídia, que salvo honrosas exceções só se presta a ouvir o lado das autoridades – as mesmas que deixaram o futebol brasileira falido, órfão de seus craques e violento.

Está mais do que provado que nossos policiais não têm o menor preparo para lidar com o público numa posição autêntica de servidor público, até porque essa concepção de policial já se descaracterizou completamente. Fora isso, tampouco possuem aptidão para controlar e contornar situações de tensão, pois estão preparados para revidar, e não tranqüilizar. É assim que se vive o dia-a-dia da profissão, o que já explica muito.

No entanto, é ainda mais preocupante, em um momento no qual já não se suporta bater nas mesmas teclas do tema da violência, que a própria corporação trate de ocultar a realidade e evite uma autocrítica. No caso do clássico paulista, aconteceu algo escandaloso já nos dias seguintes ao tumulto que sabe-se lá como foi pouco repercutido: o 34º. DP da capital preparou um parecer que incriminava totalmente os torcedores corintianos, sendo que tal ‘investigação’ foi prontamente desqualificada pelo próprio coronel que chefiou a segurança do clássico. Quer dizer, a PM já aprontava mais uma armação que mancha o nome da própria instituição, em moldes mais moderados, é verdade, se comparados às suas atrocidades nas periferias das cidades. Mas como confiar a resolução dessa endemia a autoridades que promovem tão escancarada falsificação da verdade?

De toda forma, fica difícil esperar que se resolva o problema da violência quando as próprias autoridades dão seguidos exemplos de descontrole e posterior descaso em investigações que ajudariam a moralizar um pouco o debate. Aí chovem paliativos de dirigentes e promotores incapazes de propiciar soluções verdadeiras, que terminam em mais proibições, restrições, segregações, como já se vê em São Paulo há tempos, sem qualquer efetividade.

A nova baboseira da praça é a de querer limitar ainda mais, ou vetar diretamente, o acesso do público visitante. Além de desrespeito ao básico direito de ir e vir, é uma terrível confissão de incapacidade da nossa sociedade em conviver minimamente bem com o contrário, que no caso é apenas alguém que prefere outro time. Se admitimos isso, não estamos em condições de nos considerar um país civilizado, simples assim.

São Paulo já vive um estado de exceção em seu futebol que nenhum outro local do país vive, e é exatamente a praça que concentra a maior quantidade de episódios de violência. Bandeiras, instrumentos, jornal, guarda-chuva, tudo é proibido em São Paulo, e, de quebra, os preços e horários dos jogos são cada vez mais acintosos. Natural que com esse coquetel, em meio a uma cidade já caótica e brutal, os estádios paulistas virem um barril de pólvora.

No resto do país, é verdade, a coisa não anda lá muito melhor. Pode-se lembrar também do episódio envolvendo a PM de Recife e os jogadores do Botafogo, agredidos e ofendidos de forma absurda no meio do campo só porque um de seus atletas se envolvera em confusão de jogo e trocou insultos com um torcedor. Ainda por cima a Câmara dos Vereadores local concedeu medalha aos policiais pelo trabalho, em patética demonstração do mais barato bairrismo.

Por fim, e o mais importante, é inacreditável como não se investe e se utiliza mais o trabalho de inteligência da polícia. Ao contrário do que se pensa, não são necessariamente antônimos. Conhecer com antecedência o que fazem os violentos e seus pontos de encontro pelas ruas é primordial para que se anulem suas ações. Há condições de se fazer tal trabalho com eficiência e aplicar punições concretas, já existentes em lei. Muito se cobra uma legislação específica, mas já existem penas previstas para assassinatos (ou tentativas), lesões corporais, depredação do patrimônio, dano moral etc.

O futebol já está cansado de autoridades que prometem soluções definitivas, anunciam grandes punições a caminho, mas terminam se envolvendo na mesma rede de facilidades trazidas pela notoriedade pública, holofotes, trânsito nos bastidores, enfim, todo o circo que só serve para alavancar carreiras e egos pessoais. Enquanto todos os desequilíbrios sociais não forem resolvidos, não será o futebol que erradicará a violência e a intolerância de nosso convívio, mas prevenir ações anunciadas de vandalismo e posteriormente cumprir a lei ajudaria muito a mantê-lo vivo sem que seja descaracterizado.


Gabriel Brito é jornalista.
Este texto também está publicado no Correio da Cidadania (http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3016/9/)